segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Jacques-Louis David e Vik Muniz.

Quando vi pela primeira vez o documentário não fazia ideia do quanto eu poderia extrair em sala, mais precisamente nas aulas de arte. Não é apenas a história do pintor e suas vivências na sociedade violenta e ao mesmo tempo acolhedora brasileira, mas o quanto se pode fazer com pouco. O que acabei de dizer até parece estranho e contraditório, mas a arte é contravenção de modelos sociais e o que vi no trabalho de Vik Muniz é o duelo entre o feio e o belo, o perfeito e imperfeito, o luxo e  lixo, etc...
E vamos concordar em um ponto, de que é interessante a história do personagem Sebastião chamado por Tião no documentário, um rapaz jovem, inteligente, negro da periferia, pai de família, comprometido com as questões sociais da sua comunidade e que lê muito, lê os livros que encontra no lixo. E o interessante é que já leu Maquiavel.
Mas e dai? Onde quero chegar com toda esta história?
- Quero refletir a respeito de nossos valores e como a nossa sociedade fecha os olhos e as portas para a arte, que é um exato reflexo de como nós nos comportamos, como pensamos, como agimos diante dos problemas do nosso pais.




Veja a história desta releitura, ou mais precisamente do quadro ao qual ela foi extraída.

O pintor francês Jacques-Louis David exibe com esmero sua genialidade, aliada às suas convicções políticas, na composição A Morte de Marat, tida como a maior pintura da arte ocidental, a retratar o martírio de um político.
O quadro de David é bastante sintético na exposição dos elementos. Tudo que ali se encontra é necessário e calculado, carregado de significado simbólico. Nada entra na tela por acaso, resultando numa composição forte e realística.
Jean Paul Marat encontrava-se entre os amigos de David, que tiveram uma morte violenta, durante a Revolução Francesa. Era um dos líderes da revolução. O pintor também se encontrava ameaçado, até que Napoleão Bonaparte tomou para si o comando da França.
Portador de uma doença de pele, Marat era obrigado a ficar na banheira, para que a água aliviasse seu desconforto. Para aliviar o mal-estar causado pela enfermidade, ele usava um pano embebido em vinagre na cabeça. Como ali passasse longas horas, adaptou o local para dar expedientes, colocando uma tábua sobre a banheira, que lhe servia de mesa. Ao lado, um velho caixote servia como uma escrivaninha improvisada. E foi nela que David deixou a sua dedicatória.
A fanática monarquista Charlotte Corday, em 13 de maio de 1793, apunhalou Marat dentro de sua banheira, matando-o. Na mão de Marat encontra-se a carta de apresentação que permitiu o acesso da mulher até ele. Ela foi guilhotinada quatro dias depois.
David retirou a decoração da sala de banho de Marat, deixando no fundo um vazio escuro. A banheira foi trocada, de modo que o braço caído de Marat, em primeiro plano, evocasse a pose de Jesus ao ser descido da cruz. Deixou apenas poucas manchas de sangue no lençol, de modo a atenuar a violência. Ocultou a facada no peito com sombras. E apenas um pouco da água vermelha de sangue é visível.
Os elementos principais da tela são iluminados por uma luz dramática: a face sofrida de Marat e o velho caixote que mostrava a simplicidade em que vivia. Valendo-se do estilo clássico, o pintor apresenta seu amigo fazendo lembrar, deliberadamente, as pinturas da “Descida da Cruz”, mostrando Marat não apenas como um mártir da Revolução Francesa, mas também como um santo martirizado.
O pintor modela os músculos e os tendões do corpo de Marat, dando-lhe um aspecto de real grandeza. São desprezados todos os detalhes desnecessários. O que conta é a simplicidade. O caixote, a cabeça e os braços de Marat são iluminados, enquanto as partes mais sangrentas situam-se nas sombras.
Embora triste, a figura de Marat é idealizada. Não traz as manchas da pele e o sangue possui um tom menos forte. Tanto seu ferimento quanto seu sangue são pouco perceptíveis, diante da palidez de seu corpo. Traz na mão direita a carta recebida, salvo-conduto da assassina, e na esquerda uma pena, ainda mantida de pé. À esquerda da banheira está à faca suja de sangue, único objeto a recordar o ato insano.
Em primeiro plano, vê-se sobre o caixote uma carta, com dinheiro sobre ela, uma pena e um tinteiro.  Como a pena ainda se encontrava na mão direita de Marat, pressupõe-se que ele havia acabado de escrevê-la para uma viúva de um soldado, enviando-lhe dinheiro, o que mostra a atitude caridosa do revolucionário.
A banheira, coberta com um lençol branco, chama a atenção do observador, que não compreende porque ele estaria ali, onde deveria haver apenas água. O fato é que Marat cobria a superfície de sua banheira com lençol, pois, se seu corpo entrasse em contato com o revestimento de cobre, sua pele se irritaria.
A carta de apresentação de Charlotte na mão de Marat diz: “Basta minha grande infelicidade para me dar direito à sua bondade”, estratégia usada para ter acesso até o revolucionário Marat, na sua luta contra a monarquia francesa.


É bom fazer a relação entre a história de Marat e Sebastião do documentário, e também a visão de David e Vik, tendo uma profunda reflexão das questões sociais imortalizadas em quadros. Sempre procuro a história por trás da obra e é desse modo que extraio comparações de cada época, pois o pintor nunca desvincula a sua vida de sua obra.
E quem ainda não entendeu o que eu estou escrevendo, de uma olhada no documentário, ele esta disponível no Youtube ( Lixo extraordinário).
Deixo com vocês a seguinte frase em homenagem a Tião.

"O desejo de conquista é algo natural e comum; aqueles que obtêm sucesso na conquista são sempre louvados, e jamais censurados; os que não têm condições de conquistar, mas querem fazê-lo a qualquer custo, cometem um erro que merece ser recriminado." 
(Maquiavel)